6 de jul de 2016

Café de sentinela

Sempre achei interessante as chamadas sentinelas. Não que eu seja mórbida ou mesmo do tipo carpideira, mas aquele vozerio, piadas, cochichos e verdades nunca dantes reveladas, sempre me encantaram.

Quando criança, fui criada em bairro popular e quando morria alguém, todos se acudiam em préstimos. Sempre a garrafa de café era a primeira a chegar e com ela só concorria uma boa pinga. Café, pinga e conversa se confundem com festa e  de certa forma, festeja-se o defunto. Quem morre só tem virtudes, pelo menos nas primeiras horas. Depois dos goles pode até mudar!

Tem um profundo respeito pelo assunto, respeito pelos ritos e pelas falas arrastadas e homenagens póstumas. É como se ao tratar bem que se foi, pudêssemos  postergar a nossa ida. Tenho um amigo que não passa na porta de cemitério porque "quem não é visto não é lembrado"...faz-me rir seu Marcos!

Ontem ouvindo um CD de Gilberto Gil e Caetano Veloso - 50 anos de carreira, ouvi um pérola que reparto com vocês. Brilhante Gil,  brilhante  como suas poesias e oportuna como seu sorriso maroto.


Não Tenho Medo da Morte
Gilberto Gil


Não tenho medo da morte
Mas sim medo de morrer
Qual seria a diferença
Você há de perguntar
É que a morte já é depois
Que eu deixar de respirar
Morrer ainda é aqui
Na vida, no sol, no ar
Ainda pode haver dor
Ou vontade de mijar

A morte já é depois
Já não haverá ninguém
Como eu aqui agora
Pensando sobre o além
Já não haverá o além
O além já será então
Não terei pé nem cabeça
Nem figado, nem pulmão
Como poderei ter medo
Se não terei coração?

Não tenho medo da morte
Mas medo de morrer, sim
A morte e depois de mim
Mas quem vai morrer sou eu
O derradeiro ato meu
E eu terei de estar presente
Assim como um presidente
Dando posse ao sucessor
Terei que morrer vivendo
Sabendo que já me vou

Então nesse instante sim
Sofrerei quem sabe um choque
Um piripaque, ou um baque
Um calafrio ou um toque
Coisas naturais da vida
Como comer, caminhar
Morrer de morte matada
Morrer de morte morrida
Quem sabe eu sinta saudade
Como em qualquer despedida.

"A morte é depois de mim, mas quem vai morrer sou eu. O derradeiro ato meu e eu terei de estar presente".

Não direi até...rsrsrs


#floresbrancaspelapaz

6 comentários:

  1. Querida Nouredini

    Que interessante poesia!
    Logo volta a passar por aqui para a roubar
    e levar comigo para o meu blog.
    Beijoca.
    Dilita

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    Respostas
    1. Também gosto muito desta perspectiva que Gilberto Gil dá ao fato inabitável!
      Fica à vontade a casa é sua.

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    2. Também gosto muito desta perspectiva que Gilberto Gil dá ao fato inabitável!
      Fica à vontade a casa é sua.

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  2. Gostei...Eu costumo dizer que, no que toca a funerais só irei ao meu por não haver opção!
    Bjs
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